Monday, November 12, 2012

Arriscar é: valorar 14

O comboio atravessava os subúrbios de Tóquio numa quente
tarde de primavera.
Um dos vagões estava quase vazio: apenas algumas mulheres, idosos e
um jovem lutador de Aikidô.
O jovem olhava, distraído, pela janela, a monotonia das casas sempre
iguais e dos arbustos cobertos de poeira.
Chegados a uma estação as portas  abriram-se e, de repente, a quietude
foi interrompida por um homem que entrou cambaleando, gritando com
violência palavras sem nexo.
Era um homem forte com roupas de operário. Estava bêbado e imundo.
Aos berros, empurrou uma mulher que carregava um bebé ao colo e ela
caiu sobre um banco vazio. Felizmente nada aconteceu ao bebé.
O operário furioso agarrou numa haste de metal do meio do vagão e tentou
arrancá-la. Dava para ver que uma das suas mãos estava ferida e
sangrava.
O comboio seguiu em frente, com os passageiros paralisados de medo e o
jovem levantou-se.
O lutador estava em excelente forma física. Treinava oito horas todos
os dias, há quase três anos.
Gostava de lutar e considerava-se bom. O problema é que suas
habilidades marciais nunca tinham sido testadas num combate a sério.
Os alunos são proibidos de lutar, pois sabem que Aikidô "é a
arte da reconciliação.
Aquele cuja mente deseja brigar perdeu o elo com o universo.
Por isso o jovem sempre evitava envolver-se em brigas, mas no fundo do
coração, desejava uma oportunidade legítima em que pudesse
salvar os inocentes, destruindo os culpados.
Chegou o dia! Pensou consigo mesmo. Há pessoas em perigo e se eu
não fizer alguma coisa é bem possível que elas se firam.
O jovem levantou-se e o bêbado percebeu a chance de canalizar sua ira.
Ah! Rugiu ele. Um valentão! Deves precisar de uma lição de boas maneiras!
O jovem lançou-lhe um olhar de desprezo.
Pretendia acabar com a sua raça, mas precisava esperar que ele o
agredisse primeiro, por isso provocou-o de forma insolente.
Agora chega! Gritou o bêbado. Vais levar uma lição. E preparou-se
para atacar.
Mas, antes que ele se pudesse mexer, alguém deu um grito: Hei!
O jovem e o bêbado olharam para um velhinho japonês que estava sentado
num dos bancos.
Aquele minúsculo senhor vestia um quimono impecável e devia ter mais
de setenta anos...
Não deu a menor atenção ao jovem, mas sorriu com alegria para o
operário, como se tivesse um importante segredo para lhe contar.
Chegue aqui disse o velhinho, num tom coloquial e amistoso. Venha
conversar comigo insistiu, chamando-o com um aceno de mão.
O homem obedeceu, mas perguntou com aspereza: porque devo
conversar consigo?
O velhinho continuou a sorrir. O que bebeu? Perguntou,
com olhar interessado.
Saquê; rosnou de volta o operário. E não é da sua conta!
Com muita ternura, o velhinho começou a falar da sua vida, do afeto
que sentia pela esposa, das noites que se sentavam num velho banco de
madeira, no jardim, um ao lado do outro.
Ficamos a olhar o pôr-do-sol e a ver como vai crescendo o nosso caquizeiro,
comentou o velho mestre.
Pouco a pouco o operário foi relaxando e disse: é, é bom. Eu também
gosto de caqui...
São deliciosos concordou o velho, sorrindo. E tenho certeza de que
também tem uma ótima esposa.
Não, falou o operário.A minha esposa morreu.
Suavemente, acompanhando o balanço do comboio, aquele homenzarrão começou a chorar.
Eu não tenho esposa, não tenho casa, não tenho emprego. Eu só tenho
vergonha de mim mesmo.
Lágrimas escorriam pelo seu rosto. E o jovem estava lá, com toda sua
inocência juvenil, com toda a sua vontade de tornar o mundo melhor
para se viver, sentindo-se, de repente, o pior dos homens.
Chegaram à estação e o jovem desceu. Voltou-se para dar uma
última olhadela. O operário escarrapachara-se no banco e deitara a
cabeça no colo do velhinho, que afagava com ternura seus cabelos
emaranhados e sebosos.
Enquanto o comboio se afastava, o jovem pensou... O que
pretendia resolver pela força foi alcançado com algumas palavras
meigas. E aprendeu, através de uma lição viva, a arte de resolver
conflitos.

Arriscar é: perceber

Percebemos que tem futuro não quando tudo corre bem  mas quando nos chateamos mas não queremos ir embora.